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Notícias do Esporte
Publicada em 05/08/2014.

Ícone de geração multicampeã, Giba se aposenta do vôlei: "Bem resolvido"

Aos 37 anos, ponteiro encerra ciclo como atleta e só joga de brincadeira na praia

Os passos até a quadra são dados lentamente Giba não carrega na bolsa mais o velho material, mas sim as três medalhas olímpicas. Não tem ciúme. Permite que quem se interessa por elas possa segurá-las. Diz que não são dele, "são nossas". No lugar do uniforme, calça, camisa social e sapatos. O ponteiro de tantos títulos, que marcou uma geração vitoriosa do vôlei brasileiro, estava pronto para ser chamado de ex-jogador. Nesta sexta-feira, Giba colocou um ponto final em sua carreira de atleta. Aos 37 anos, quer começar uma nova história. E mesmo que as palavras dissessem que estava tranquilo, os olhos teimavam em mostrar que aquele momento era difícil. Durante a entrevista, se emocionou várias vezes.  

O primeiro ensaio de aposentadoria foi no ano passado. Não espontâneo, mas forçado. Depois de se despedir da seleção nas Olimpíadas de Londres, Giba fez as malas e foi defender o Bolívar, da Argentina. A ideia era jogar mais uma temporada e parar de vez. Mas a passagem por lá não saiu da maneira que imaginava. Sem receber salários durante sete meses e passando pelo processo de divórcio, não disputou as semifinais da Liga e voltou ao Brasil. Acreditava que se recolocaria rapidamente no mercado. Poucas propostas boas apareceram. Até que o Taubaté entrou em cena e o fez recuperar o fôlego. Queria se divertir e dar uma resposta: mostrar que continuava sendo o Giba. A permanência foi breve. O convite para atuar 12 meses como jogador e mais cinco anos como consultor do Al Nasr de Dubai, nos Emirados Árabes, o levou a rescindir o contrato com a equipe paulista. Após três meses de experiência, o contrato foi rompido.

- Acabei supertranquilo. Ali (em Taubaté) já tinha resolvido parar. Aí veio a proposta de Dubai. Resolvi jogar mais um ano. Condição física eu tinha, estava saltando bem de novo e com bom aproveitamento no ataque. Fiz 11 jogos lá, mas a cultura era diferente e não deu certo. Hoje acho que o que tinha que fazer eu fiz. É melhor você parar do que pararem você. Não sinto falta de nada. Nada mesmo. Acabei bem resolvido, feliz com que fiz. Uma hora tem que acabar... É complicado (se emociona). Não tem como descrever o que está passando dentro de mim. Só quero agradecer às pessoas que me ajudaram, que estiveram ou estão ao meu lado. E que me desculpem alguma coisa que eu tenha errado. A sensação é de dever cumprido. De saber que dei o meu máximo em todos os momentos. Fui um jogador bom, não me considero o melhor. Um jogador que fez parte de uma geração maravilhosa. Vai ser difícil um outro time bater o que a gente fez em 12 anos. O conjunto fez o melhor time. Eu fui uma peça dentro da engrenagem  - disse o campeão olímpico em 2004 e mundial em 2002, 2006 e 2010.

Giba garante que faria tudo igual. De erros a acertos. Aprendeu com todos e pôde corrigir rumos. Um deles foi voltar a falar com o levantador Ricardinho, com quem dividiu quarto por 11 anos nos tempos de seleção. Foram cinco anos afastados até a reaproximação. Juntos novamente, conquistaram a medalha de prata nos Jogos de Londres 2012. Desde então, aprendeu a acompanhar a equipe nacional apenas como espectador. 

Vez ou outra, volta a dar suas cortadas numa rede na Praia do Pepê. Joga com anônimos e se diverte com suas reações ao vê-lo ali, dividindo a quadra com eles.

- Agora jogo só na "rataria", sem regras. Outro dia fui com meu sogro à praia, e ele foi lá na rede perguntar se podia jogar. E aí o chamaram, e ele disse que tinha mais um. Levantei e fui até lá. O pessoal olhou e falou: "Você está de sacanagem, né?" É engraçado ver essa resposta do público de diferentes idades. Teve uma vez que um senhor me abordou, e eu fui me levantar para falar com ele. Eu disse que era um prazer conhecê-lo, e ele me falou que eu já era íntimo dele: "Sabe quantas vezes você entrou na minha casa de madrugada?" (risos)  Eu me sinto lisonjeado por ter recebido isso da vida. 

Confira abaixo o restante da entrevista:

 

Do que você vai sentir saudade?
Das pessoas, dos amigos que fiz, das línguas que aprendi, dos lugares que conheci. Não é qualquer um que vai 16 vezes ao Japão. Nós criamos uma família na seleção. Peguei as filhas do Ricardinho no colo e agora a mais velha já tem 16 anos. Ricardo, desculpa se ficou alguma mágoa. Espero que a gente continue essa amizade. Eu e Serginho íamos parar com a seleção depois de Pequim. Mas o Bernardo pediu para que fizéssemos um esforço para poder ajudar a preparar a nova geração. Aceitamos o desafio e ficamos até Londres. Mas agora eu preciso estudar, pensar no que fazer. Estou próximo dos 40. É uma nova fase.

Trabalhar com gestão esportiva segue nos seus planos? 
Acho interessante. Tenho experiência dentro de quadra, mas posso fazer a quadra melhor agora do lado de fora. Estou voltando a estudar, fazendo os cursos do Comitê Olímpico Brasileiro. Tenho projetos, dou palestras. 

Não pensa em ser técnico?  
Não quero. Mas nunca diga nunca... Acho que aí estaria voltando a fazer o que sempre fiz. Vai acabar sendo a mesma coisa. E eu quero novas experiências. Se você não estimula o cérebro, fica burro. E quando a gente é atleta não pensa em nada. As pessoas te falam a hora de acordar, de dormir, que roupa vestir. A geração da gente foi muito legal. Nalbert, Gustavo, André Heller... A gente levava livros para as viagens e trocava. Queria conhecer coisas novas. 

 

Você continua sendo uma referência muito forte na atual seleção. Sempre acaba sendo citado por um ex-companheiro ou pelo Bernardinho. Esperava por isso?
Nunca conquistei prêmios individuais porque queria ganhar. O importante sempre foi a medalha. Sei que influenciei, que fui um espelho para muita gente. Não só no vôlei. Conheci um menino em Recife e entreguei uma bola para ele. Aí ele perguntou o meu nome. Eu disse que era Giba. Ele perguntou de novo o nome de verdade. Eu falei que era Gilberto. Ele me falou assim: "Eu também sou Gilberto, tenho o mesmo problema que você teve (leucemia), vou me curar e te achar para contar. Dois anos depois, ele fez 2.000km para falar comigo em Brasília. Quando o vi descendo a escada com a mãe não consegui treinar. Lembro que ele falou: "Não disse que ia me curar?”

Teve também uma menina que me abraçou num aeroporto e disse que a avó e a mãe tinham morrido e que ela se apegou a mim para não se matar. Sei que ajudei muita gente a se superar, como eu também fiz na minha vida.

Bruninho diz que a final olímpica de Londres segue viva na lembrança dele até hoje. Você também relembra aquele  momento? 
A única vez que chorei no pódio foi lá. Mas não era porque tínhamos perdido a medalha de ouro, e sim pelos 20 anos que tinha passado defendendo a seleção e ver que aquilo tinha acabado ali. Claro que perder do jeito que perdemos também foi ruim. Mas para mim foi aquela sensação: " E agora?" Acabou tudo". Ele (Bruninho) não. Ele tem mais três Olimpíadas e tempo para chorar só que pela conquista de novos ouros.

Você acredita que o Brasil tem chances de conquistar o tetracampeonato mundial na Polônia? 
Quando estavam disputando a Liga Mundial, e as coisas não estavam saindo do jeito esperado e todo mundo estava criticando eu falei: "Esperem porque eles vão chegar de novo". E foram para a fase final e ficaram com a prata. Estou confiante e acho que vão chegar ao Mundial com muitas chances. A Rússia perdeu o líbero e o oposto. Acho também que nos Jogos eles vão bem. A renovação é natural, e o Bernardo teve essa capacidade de vislumbrar o futuro, levando Sidão, Bruninho, Eder e Murilo para ir treinar com a gente e ganhar experiência. Estamos há quatro ciclos olímpicos no pódio. Confio muito nesse grupo.

Seus filhos jogam vôlei? 
Não (risos). Ela faz atletismo, ele gosta de judô. Para Nicoll, o vôlei foi o que tirou o pai dela de casa. Diz que não quer por isso. Ela tem 10 anos e é ciumenta. Vai ao shopping e fala que hoje o pai é dela, que ninguém vai parar para tirar foto comigo. Patrick é moleque. Está com 6 anos e gosta de futebol e judô. Os dois praticam muito esporte. 

O que foi mais sofrido durante toda a carreira? 
Nicoll e Patrick são os meus tesouros. Quando eles nasceram foi bem difícil. Eu viajava muito. Lembro que estava na Coreia, e ela não queria falar comigo pelo computador porque eu estava há 25 dias fora de casa. Ela então olhou para tela e disse: "Oi, papai. Não me obrigue mais a falar com você pelo computador porque eu sinto saudade." (chora) Doeu não ver essa parte do crescimento dela. Patrick também é maravilhoso e reclamava, pedia que eu não viajasse de novo. Ela nasceu quando eu estava nas Olimpíadas de Atenas. “E ele, depois das de Pequim Nicoll sempre brinca: A minha medalha é de ouro, a sua é de prata”.

PRINCIPAIS TÍTULOS DA CARREIRA

3 medalhas olímpicas (ouro em Atenas 2004, prata em Pequim 2008 e Londres 2012)
3 ouros em Mundiais 
3 Copas dos Campeões
2 Copas do Mundo
1 Pan-Americano

8 Sul-Americanos

Integrante do Hall da Fama do Vôlei


Fonte: http://globoesporte.globo.com/

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